Programa de Educação Tutorial (PET) - BIBLIOTECONOMIA

LÉVI-STRAUSS FORA DESSE MUNDO



No último dia 03 de novembro recebemos a notícia da morte do antropólogo Claude Lévi-Strauss, ocorrida no último fim de semana, e que completaria 101 anos no próximo dia 28 de novembro. Lévi-Strauss, belga de nascimento, era catedrático em Filosofia e Direito pela Sorbonne e lecionou na França por dois anos, até receber o convite em 1934 para integrar a missão francesa destacada para lecionar na recém inaugurada Universidade de São Paulo de 1935 a 1939, época em que partiu para viagens de pesquisa etnográfica junto aos povos indígenas brasileiros das regiões norte e centro-oeste. Posteriormente, lecionou nos Estados Unidos e retornou a Paris em 1950, assumindo a cátedra de “Religiões dos povos sem escrita” na Escola de Altos Estudos. A partir dessas viagens e do seu desejo de compreender as diferentes sociedades que encontrou, é que aflorou o antropólogo em detrimento do filósofo; aquele que observava e evitava julgar, seja a sua sociedade, ou as outras. Assim, se tornou crítico daqueles que procuravam nas sociedades que julgavam “primitivas”, apenas seu caráter exótico, ou classificavam suas manifestações como “atrasadas”, fazendo das populações estudadas “um reflexo de nossa própria sociedade”. O que se evidenciava, neste tipo de estudo criticado por Lévi-Strauss, era uma afirmação da ausência ou do que era escandaloso e chocante nas culturas investigadas. Mas para Lévi-Strauss, “não se deve definir nenhuma cultura pelo que se lhe recusa, mas antes pelo que se lhe reconhece de próprio para justificar a atenção que lhe prestamos”. O antropólogo defendia que essas sociedades ágrafas, contavam com uma organização sofisticada expressa através de mitos, ritos, objetos, arte, hábitos, e por isso, não poderiam ser chamadas de “primitivas”. Esse pensador questionava o fato dos pesquisadores se darem por satisfeitos com muito pouco, quando através de idéias pré-concebidas, acreditavam ter conseguido atingir o pensamento dos povos que estudavam. Desse modo, Lévi-Strauss propôs uma exigência suplementar: por trás das idéias que os homens têm da sociedade, dever-se-ia tentar descobrir um sistema, uma estrutura além dos limites da consciência. Ao propor um novo método de abordagem, a partir da noção de estrutura social, Lévi-Strauss trouxe o Estruturalismo para a Antropologia, cujo método deve obedecer a algumas condições: os fatos devem ser observados e descritos sem que preconceitos teóricos alterem sua natureza e importância, ou seja, devem ser estudados em si mesmos e também em relação com o conjunto; também é preciso pensar a estrutura em caráter de sistema, em que uma mudança em um dos elementos acarreta mudança em todos os demais. Foi considerado o “pai da antropologia estrutural”, ao afirmar que “um grupo de fenômenos se presta tanto mais à análise estrutural quanto a sociedade não dispõe de um modelo consciente para interpretá-lo ou justificá-lo”, pois o antropólogo não tem diante de si materiais brutos, mas estruturas já construídas pela cultura considerada, sob a forma de interpretações. As estruturas marcaram seu pensamento, e após Lévi-Strauss, o cientista é impelido a não ser somente um burocrata especializado, para ser um produtor de conhecimento, que explora não só sua área de atuação, mas a lingüística, literatura, matemática, biologia, psicanálise, filosofia, questionando as fronteiras entre as especialidades, entre a ciência e outras formas de pensamento: a arte, o mito, a magia. Já que, para Lévi-Strauss, o pensamento humano, seja concreto ou abstrato, pode ser desigual quanto aos resultados práticos e teóricos, mas que não difere em relação à natureza das operações mentais que ambos supõem: “A lógica do pensamento mítico nos pareceu tão exigente quanto aquela na qual repousa o pensamento científico, e no fundo, pouco diferente. [...] Talvez descobriremos um dia que a mesma lógica se produz no pensamento mítico e no pensamento científico, e que o homem sempre pensou do mesmo modo. O progresso – se é que então se possa aplicar o termo – não teria tido a consciência por palco, mas o mundo, onde a humanidade dotada de faculdades constantes ter-se-ia encontrado, no decorrer de sua longa história, continuamente às voltas com novos objetos”. Seu pensamento segue pulsando através de suas principais obras: "Estruturas elementares do parentesco" (1949), "Antropologia estrutural" (1958), "Pensamento selvagem" (1962), série "Mitológicas" (publicados entre 1964 e 1971) e, "Tristes Trópicos" (1955), a mais famosa delas. Sentiremos saudades do intelectual completo, sensível, humanista que fez a ciência dialogar com outras formas de conhecimento, e que já não se sentia parte desse mundo. Em entrevista recente, o antropólogo declarou ser incompatível com os tempos atuais: “Caminhamos para uma civilização em escala mundial. Nela, provavelmente, acontecerão as diferenças. Não pertenço mais a esse mundo. O mundo que eu conheci, o mundo que eu amei, tinha 1,5 bilhão de pessoas. O mundo atual tem 6 bilhões de humanos. Não é mais o meu”.

Autores: Tamara de Souza Brandão Guaraldo, é jornalista, doutoranda do Programa de Pós-graduação do departamento de CI – Unesp-Marília e Ciro Monteiro, professor de história e estudante de biblioteconomia na Unesp-Marília.)

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